A Krypta da FozIber
maio 2005
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 31        
   

maio 23, 2005


Semiose das Religiões


coruja mensageira.gif 


Um dos aspectos fulcrais dos documentos sagrados e muito notórios na Bíblia e no Corão, assenta no facto dos livros ou textos se corrigirem uns aos outros cada qual no seu Corpus e apenas em relação a si, como é óbvio. Na Bíblia temos, para exemplo, a história de Abraão e Sara na sua entrada para o Egipto na qual Abraão se volta para Sara e lhe diz «quando entrarmos no Egipto não digas que és minha esposa mas sim minha irmã, o que é verdade porque não sendo filhos da mesma mãe o somos do mesmo pai o que nos faz irmãos. Porque a tua beleza é grande e o faraó seguramente te quererá desposar e se eu for teu marido primeiro matar-me-à mas se eu for teu irmão, não só me manterá a vida como me colmatará de bens...» Esta história encontra-se repetida em Génesis e se a analisarmos dentro do tempo histórico bíblico na primeira versão Sara seria muito novinha enquanto na segunda rondaria os noventa anos, o que tornaria improvável essa afirmação e cuidados sobre a sua beleza. Por mais especulação que se possa fazer sobre este material tal cessa se se ater aos documentos do ponto de vista literário o qual começará pela análise literal do texto.


Paralelamente, nota-se nos textos sagrados, quando analisados do ponto de vista literário e fora de conceitos e imposições teológicas, a completa ausência do termo e da ideia de Deus a qual só muito posteriormente foi teologicamente agregada ao texto sagrado – no caso da Bíblia é gritante que Jeová ou Javé, sendo o verbo ser no estado imperfeito, formasse o nome de Deus mas as cambiantes do verbo ser têm nuances como o Êyê ashêr Êyê nome que o anjo deu a Moisés -  eu Sou o que Sou mas ashêr é um termo para relativo e, portanto, fora do absoluto como convém ao divino - como sendo o nome do seu deus que tal como Jeová (ou Javé) parece que o deus se opõe a classificar-se nominativamente.


Estes aspectos são mais observáveis nos documentos sagrados classificados em sistemas divinatórios e que já atrás abordei ser uma classificação factual porque qualquer documento do sagrado tal como tem que conter as cantigas de amor e de amigo também possui obrigatoriamente o estilo divinatório que e como disse, assenta numa poética e numa prosa poética de estilo muito próprio. Deus não pode ser encontrado nos limites da lógica porque o seu estado infinito não o permite tal como a própria concepção matemática do infinito obrigatoriamente nega a lógica e, desta forma a matemática joga por parcialidades finitas – teoria dos limites -, para sectorizar o infinito. O I Ching nasce dentro da lógica binária o que se observa na arrumação dos trigramas. Os hexagramas cumprem os valores binários de zero a sessenta e três mas a sua arrumação parece fugir a qualquer ordem lógica. Desta forma e sucintamente, os documentos denominados de sagrados são a parte da matéria que partindo das coisas assumidas aos nossos olhos como naturais pretendem avançar no caminho do transcendente, isto é, na descoberta do mais além mas nunca se afoitando na pertença descoberta do infinito ou do divino, nem tampouco teologicamente.


No caso da história, acima apresentada, de Abraão e Sara é a visão latina em função do tempo que faz pôr a veracidade da história em causa a qual, como muitos outros textos, foi repetida apenas por dúvida por parte dos escribas sobre qual das duas versões era a que mais coincidia com a história original e este aspecto era (e é) de suma importância para qualquer tradição oral ou escrita da antiguidade, na qual as versões eram escrupulosamente mantidas a fim de que nenhum dado se perdesse. Conjecturas sobre aspectos contraditórios ou mesmo bizarros não tinham qualquer forma-validade para quem profundamente desejava manter o mais letra a letra todos os aspectos versados e vertidos nos documentos do sagrado.


Portanto, o aspecto latino de uma lógica de princípio de identidade se e somente se a = a, tal como o unilateral se A vai para B nunca B pode ir para A, como o princípio da não-contradição é impossível que uma coisa seja A e não o seja ao mesmo tempo, ou o princípio do terceiro excluído ou A é verdadeiro ou A é falso uma terceira hipótese está fora de questão e, por fim, o modus ponens se A então B; mas A, então B, todos estes aspectos não possuem qualquer validade na literatura do sagrado em geral e no divinatório em particular porque o infinito está patente em todas as situações tanto no aparente cartesiano Yin e Yang como e muito mais, nas suas infinitas mutações.


Ora, numa Literatura Comparada de Religiões o princípio do terceiro excluído está imediatamente anulado porque se possui já uma suficiente base de dados quanto mais não seja para afirmar e provar que um determinado documento do sagrado não é falso perante outro mas todos os documentos possuem dados que tendem a completar o que é falho num ou em vários e, por isso, são sempre complementares porque sobre os documentos do sagrado sabe-se que a verdade não é um dado adquirido mas sim uma busca incessante. A visão fóbica do latino em relação ao infinito produziu muito em matéria de jurisprudência mas mesmo assim tornou-se falho no modus operandi interpretativo nas salas judiciais porque, pelo menos, quanto mais se legisla com o fito de abarcar o profundo contemplando o máximo de situações mais se permitiu e permite o demonstrar que aquilo que à partida se sentia como verdadeiro ou não possui provas suficientes ou é falso e isto porque se caminha de novo para uma ampliação de hipóteses que de per si já deixou o limitativo para tender para um infinito.


É nas transmissões, desde a antiguidade, sobre o Uno que o princípio da não-contradição falha pela base uma vez que o Uno contém os contraditórios, o tal yin e yang formador de tudo e daí que o Uno e o Todo sejam inseparáveis seja por qualquer ângulo que se observe e, da mesma forma, o particular. Ora, este é um dos fundamentos para que um documento do sagrado seja tido como tal: que nele quanto mais ambiguidade mais o torna de sagrado porque a ambiguidade é a aparência que denota a presença dos símbolos e das metáforas e não vale afirmar-se que não se pode definir Deus porque a nossa linguagem não tem capacidade para isso, porque também não a tem para o cálculo tensorial e ele não deixa de ser exposto por sucessivas e enormíssimas equações matemáticas muitas vezes advindo de uma única e pequena equação que contém em si todo esse desdobrar de deduções. Agora, Deus não se define por que é infinito e não se pode limitar (= a definir) aquilo que não é limitável tal como a teoria do infinito não define apenas funciona por limites sucessivos. D’onde, estamos de novo perante o típico problema falsamente equacionado e que expõe que sendo Deus omnipotente e omnisciente crie ele uma rocha que Ele mesmo não possa com ela, isto é, ou ele a cria e deixa, por isso de ser omnipotente, ou não a cria e imediatamente deixa de ser omnisciente e, também, sem capacidade de provar a sua omnipotência. É obvio que o termo omnisciente nada tem a ver com o fazer tudo mas sim com o saber, mas mesmo sem esta argumentação, que eu saiba, no mínimo todos somos tridimensionais e se o espaço é igual à velocidade vezes o tempo e sendo Deus infinito e intemporal obtemos como resultado do equacionado que o espaço para Deus é zero. Aonde ele está aí se encontra o referencial zero e como ele se encontra em toda a parte.... nada mais há a dizer.


O que faz o documento sagrado ser um clássico sempre actual são os valores supracitados e nisto reside a grande capacidade das alusões, das metáforas, das parábolas e das alegorias, pelo menos. Se observarmos um documento dito sagrado no seu idioma original observamos na sua redacção um estilo telegráfico. Ausente de pontuação é, por vezes, acrescentado com anotações melódicas – sintónicas ou assintónicas -, de ritmo não lhe faltando as pausas que o ritmo exige. Porém, na generalidade dos casos – em todos os que observei e foram muitíssimos -, essas anotações são muito posteriores ao texto original. Por outro lado também não havia divisão de palavras, isto é, a frase é toda corrida podendo inclusive compreender aquilo a que hoje chamamos um capítulo e esta é outra característica de um livro considerado sagrado.


Porque o documento sagrado é atemporal – e esta minha afirmação assenta numa base semiótica muito forte –, ele não se pode afirmar sempre presente; apenas o aparenta dado que, na realidade poderá aparentar ser sempre futuro e o é na sua redacção e contexto. Ora o contexto é o da ausência dentro de uma gramática que nem sequer possui tempo verbal e onde toda a palavra é verbo o qual, por sua vez, ou se encontra nos estado perfeito ou no estado imperfeito – Yang ou Yin -, ou nas suas tendentes de imperfeito para perfeito e assim sucessivamente, isto é nas suas mutações. Por hoje e por fim, lembro que os idiomas não possuíam letras maiúsculas ou minúsculas, eram (e muitas ainda hoje o são) uniformes.


Renovo a comunicação de que esta exposição se dá todos os dias no Pal Talk na nossa sala a Krypta da FozIber em Social Issues a partir das 19 horas, todos os dias.



Publicado por foziber em 06:08 PM | Comentar (0)

maio 16, 2005


A Universalidade do Inferno em Literatura de Religiões


coruja mensageira.gif 


As poesias, as prosas poéticas, as prosas, a estatuária, os monumentos e os templos, enfim, todos estes documentos relativos ao inferno captam a nossa atenção pela bizarria das formas e das cores dessintónicas a todos os níveis acima citados. Há toda uma procissão e danças com rufares e sons aparentemente desaparelhados mas se nos debruçarmos sobre o material observamos riquíssimas figuras de estilo, fantásticos estilos literários e o que nos parece dessintonia não é mais que um Jazz técnico cuja improvisação é implícita e obrigatória.


Desde o oeste asiático e por todo o mundo as panaceias infernais desenrolam-se numa sintaxe muito profunda e, como até a prosa era recitada era na representação que se observava – e se observa – as inúmeras vertentes literárias de uma peça.


Não foi por acaso que o inferno de Dante tal como Gil Vicente, na sua obra O Auto das Barcas apela a um humor sórdido que muitos analistas consideraram tratar-se de uma crítica sobre as bizarrias dos ensinamentos católicos. Mas tal como a poesia épica tem o seu canto nono (alusão figurativa aos Lusíadas) tal como toda uma estrutura bem definida, da mesma forma os documentos sobre o inferno contém sistemas, figuras de estilo, alusões e humorismos sarcásticos obrigatórios aos quais nem Dante nem Gil Vicente se desviaram.


O mundo infernal reflecte a vida da própria Terra e é a ela que se aplica e se compilarmos todos os documentos existentes nas várias culturas ancestrais do mundo, observaremos outro Panchatantra induzindo o ser humano à estratégia, à correcção do seu comportamento tal como convidando à alienação considerando as coisas deste mundo como ilusórias. Senão vejamos; todos os elementos terrestres são necessários no âmbito do infernal: os cinco elementos, as ferramentas de tortura, os venenos, etc. e como tal, cada ser tem que manter no inferno o seu corpo físico, as suas fraquezas à dor, à sede – como no suplício de Tântalo – e a todas as formas para que um observe em si tal como nos outros a impunidade e o sofrimento atroz que demove o ser a favor de um comportamento e um pensamento dirigido de acordo com o socialmente necessário.


Obviamente toda esta literatura e estatuária tornou-se uma mina de domínio nas mãos dos senhores dominantes os quais ordenavam sistematicamente que monges e sacerdotes incutissem essas ideias a fim de dominarem o povo e o tornar servil às soberanas vontades com pouco esforço jogando com a credulidade dos humanos.


Posteriormente e na Literatura dita clássica ocidental – e que normal e invariavelmente se reporta à Grécia –, estes documentos assumiram todo um pensar que tinha que fazer parte da instrução literária mas sobre ela pouco ou nada se avançou. Por outro lado as religiões, utilizando este material, alcançaram uma profícua cultura de almas atormentadas pelos tormentos da Terra e pelos ainda advindos nesses mundos de sombras e torturas. Porém a Literatura dita clássica, no conceito universitário do termo, ainda aventou a hipótese de toda uma exposição psicológica do ser perante as agruras da vida relatada sob um estilo muito próprio mas por aí se quedou.


Cabe pois à Literatura de Religiões caminhar mais longe no trabalho investigativo dos corpos destes documentos e mais acertado estou se vos afirmar que estas histórias também eram – como ainda o são – aplicadas em indivíduos que exteriorizam problemas mentais, desvios de comportamento, etc. Parecendo uma contradição não o é uma vez que se crê que um bom pesadelo é um método e modelo muito útil para permitir o esvaziamento mental das fobias e complexos do ser em tratamento.


Por outro lado, uma religião sem inferno não funciona porque perde toda a sua funcionalidade – que é a sua razão de existir – acabando por pregar a peixes em vez de recolher ovelhas para o rebanho. Mas, já para a Cabalística e para a Alquimia, por exemplo, os elementos infernais são fundamentais para todo o seu sistema investigativo da natureza e dos funcionamentos comportamentais. Mais gritante ainda é o caso alquímico que necessita fundamentalmente desses elementos infernais para mutar o chumbo em ouro. Nada deste material a literatura se pode dar ao luxo de passar por cima sob pena de perder os valores literários implícitos.


O grotesco do inferno possui ainda outra vertente para além do já apresentado como garante do domínio por parte dos grandes senhores. Não tão universal o humorismo teatral invadiu toda a China e o Este Asiático muito antes das teorias herméticas e das gnoses ocidentais. Os bailados, os teatros e as festas infernais de cariz tragico-comédico invadiram essas regiões como que com o fito de libertar as civilizações dos terrores nocturnos e diurnos transparecendo uma origem anarquista do pensar humano e o carnaval vem nessa vertente. Por outro lado, invocando o deus e o diabo, que sempre comeram à mesma mesa, avançavam para a guerra no intuito de formarem impérios.


Há que não sublimar a contradição a fim de que ela seja ultrapassada; tal poderá ser necessário para o mundo das ciências que trabalha baixo sistemas dedutivos e demonstrativos aonde o ad contrarium é sine qua non, mas para o mundo da literatura a contradição é tão necessária como a dessintonia para a música. A contradição é a base dos opostos de um deus que cria e impõe simultaneamente o bem e o mal; a contradição é a base das grandes obras de humor, sarcasmo e mal dizer. Anarquista numa primeira observação, nota-se no seu aprofundar conter um corpo lógico acérrimo em que a mentira se revela como tal e exibindo-a como um dos factores mais importante para a sobrevivência da espécie humana; a este ponto denominam, ou tendem a fazê-lo, de estratégia mas é mentira pura.


O infernal expõe o mal de tal forma que acaba por atrair as mentes, o pensar humano a tal ponto que não houve civilização que sobre ele não escrevesse de forma atraente, apaixonada e querida. Desta forma, levaram de retro os dominadores imperiais que o usaram para escravizar o povo. Posso afirmar que uma das fortes vertentes da crítica social assenta nesta matéria exibindo prazenteiramente as contradições dos ditos penitentes como no caso do Santo Ofício em O Nome da Rosa.


Para oriente asiático a história do bem e do mal estava incompleta para a sua mentalidade e tal se observa também no Popol Vu, tal como por toda a Europa aonde o bem e o mal têm que ser manipulados em simultâneo – a África não escapa a este raciocínio inerente a todos os povos aborígenes –, outra universalidade. Porém o oriente asiático, tal como o Popol Vu, descobriu nos sinais dos céus em paralelo com os sinais na Terra aquilo a que chamaria de mutações e que se encontra bem patente no I Ching se bem que se espelha por toda a literatura budista e hindu. O bem de per si não possui qualquer consistência se o mal não existir e vice-versa, mas o absoluto bem está tão fora de questão como o absoluto mal; moral da história: por mais devota que a vida seja ao mal ou ao bem o seu alcance é utópico.... um humano é incapaz de tais valores absolutos. Porém, nos mutantes, isso sim, nessa relatividade se encontra o caminho de todos os seres e por isso se afirma que a clausura monástica provoca o engordar dos monges. D’onde quem pensar que a excessiva gordura das imagens de Buda não tem a sua forte componente humorística engana-se.


Ora, acontece aqui outro fenómeno. Há em tudo isto uma tripla vertente mnemotécnica – arte fundamental na tradição oral mantendo-se posteriormente, na escrita –, e cuja formula básica assenta no tripulo aspecto: humorismo, gigantismo e bizarria. Seguramente que nos monges e estudantes em que o decorar os textos é implícito, exteriorizem todo um riquíssimo humor – tanto sadio como doentio* –, uma bizarria sui generis, tal como o gigantismo necessário para inculcarem as suas transmissões orais. Tal se exterioriza popularmente no teatro e nas artes em geral.


Este é o repto que vos lanço esta semana para discussão na nossa sala – Pal Talk – A Krypta da FozIber, mas para que o debate possa atingir a maior profundidade possível convido-vos vivamente a ler os textos anteriores. Já vos afirmei que é meu estilo, quando pareço estar a concluir as ideias, deixar tudo no ar para avançar com outra vertente. Se não for assim o debate perde a sua força e, ademais, é uma fórmula ou método muito rico para facilitar a contraposição discursiva.


* Um dos estados psíquicos de Sabbatay Tzevi, na nossa página URL:http://fozibertzevi.no.sapo.pt



Publicado por foziber em 03:37 PM | Comentar (0)

maio 10, 2005


Literatura Comparada de Religiões com Italo Calvino - Parte II


coruja mensageira.gif 


Relativo ao seu sétimo ponto prossegue Italo Calvino «Os clássicos são os livros que nos chegam trazendo em si a marca das leituras que antecederam a nossa e atrás de si a marca que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).» Comentando sobre isto «Isto tanto se aplica aos clássicos antigos como aos clássicos modernos.»


E eu questiono: como se formou um clássico no âmbito do sagrado? Realmente, os livros ditos sagrados formaram-se dos usos, costumes e dos debates tribais tal como inter-tribais tendo, posteriormente, deixado atrás de si (nos diferentes idiomas), costumes, leis, ensinamentos, estratégias, ritualísticas, etc, tal como refinaram o idioma através dos sons e do canto alcançando todos os campos como a Arquitectura, a Estatuária, os maneirismos ritualísticos, a dança, a medicina, a observação dos astros e muito mais. Mas a formação do livro sagrado não se deu de uma só vez, foi acontecendo ao longo de séculos e séculos tal como o Panchatantra que sendo anterior a 1000 AEC apenas foi compilado definitivamente em 500 AEC e ao I Ching. A todos os livros sagrados, de que tenho conhecimento, aconteceu o mesmo e, perante isto, nem o Corão – o mais recente – fugiu à regra.


Há, paralelamente, na tradição afim a muitos livros sagrados um lamento que não se pode deixar passar para bem da análise e que assenta no facto do documento, a determinada altura, ter de obrigatoriamente, pelas circunstâncias, ser escrito e este lamento prossegue afirmando que ao ser vertido para a escrita muito da sua riqueza espiritual tende a ser perdida e tal acontecerá aos povos que perderem a tradição. Este é o lamento dos Ciganos da Boémia relativo ao Tarot, dos talmudistas em relação à Thoráh e à Cabbala e de muitos outros como o do povo da Abissínia, especialmente no que concerne aos etíopes e só estes para exemplo.


Mas Italo foca e muito bem «...a marca que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).» Na realidade, o documento sagrado só era escrito quando as circunstâncias da identidade do povo se encontravam periclitantes – por invasões, cataclismos, etc – ou a cultura era proveniente e imposta pelo divino, apresentando-se como revelação, contrariando em absoluto a conduta de um povo já com mais de dois mil anos; e friso ‘mais dois mil anos’ porque é o tempo, dentro de uma endogamia tribal ou inter-tribal mas restrita, necessário para se tornar comum e indiscutível na sociedade. Neste caso o registo escrito impunha-se a fim de se não deixarem contaminar pelos hábitos antigos e pelos costumes dos povos circundantes, não aderentes à nova lei. Há também registos do sagrado que foram vertidos para a escrita porque com o tempo foram formando um corpo filosófico saindo já do conceito de religião mas não do conceito do sagrado tal como o Taoismo, o Budismo no seu início e outros.


Deixando, por agora, esta exposição no ponto de compasso de espera, porque é assim que me é conveniente, passo ao ponto oito de Italo «Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma vaga de discursos sobre si, mas que continuamente se livra deles.» Este é outro aspecto típico do documento sagrado observável em muitos mas mais realçado na Bíblia. Porém e para não focar apenas esse documento temos também as considerações de Confúcio nos seus ensaios filosóficos e literários sobre as religiões da China tal como sobre o Budismo e coloco o Budismo à parte, porque tendo origem na China foi migrado para o Sanscrito como alguns outros documentos chineses.


Na realidade, retirando o que ainda hoje se mantém na tradição oral dos descendentes dos Incas, Confúcio é o primeiro a debruçar-se sobre a Literatura de Religiões e a sua necessidade. Não obstante, isto observa-se entre os talmudistas e os cabalistas ao ponto de ser sine qua non entre os judeus por meio dos rabis formando a base de discussão interpretativa da Thoráh a qual interpretação varia em várias vertentes pelas circunstâncias e a estratégia que implicam provocando «... incessantemente uma vaga de discursos sobre si...» e quando as situações ambientais estabilizam «...continuamente se livra deles.» Confúcio na atribulação a meados da sua vida apresenta a mesma característica para evitar as políticas chinesas – meio ao qual ele próprio pertencera e fora convidado a demitir-se -, observando-se muito da sua estratégia nos seus ensaios sobre o I Ching.


Quando nos debruçamos sobre os comentários aos livros sagrados - e não há nenhum que os não tenha -, observamos os desvios e os retornos constantes necessariamente aplicados, podemos pensar ser provocado pela migração do material sagrado como no caso da China para a Índia, também observamos no que concerne ao Popol Vu, tal como mais actualmente no Corão; porém, na Biblia e aquando da sua compilação por parte da Igreja Católica, não se consegue destrinçar o documento comentário do documento sagrado a não ser por uma leitura aprofundada nos idiomas que a compõem e de acordo como a tradição judaica destrinça estes documentos.


No ponto nove o nosso interlocutor afirma que «Os clássicos são livros que quanto mais se julga conhecê-los por ouvir falar, mais se descobrem como novo, inesperados e inéditos ao lê-los de facto.» E sobre este assunto não me vou prolongar uma vez que caracteriza os clássicos em geral tal como afirma Italo Calvino no seu comentário a esta sua afirmação «Naturalmente isto verifica-se quando um clássico ‘funciona’ como tal, ou seja, quando estabelece uma relação pessoal com quem o ler.» Sobre este ponto Italo Calvino apresenta aspectos muito importantes do foro pedagógico fazendo tese na importância da leitura desinteressada a qual apenas será a forma como elegemos os nossos clássicos.


No ponto dez prossegue «Chama-se clássico um livro que se configura como equivalente do universo, tal como os antigos talismãs.» Aqui Italo concede-me a ligação deste texto com o terceiro deste blog quando abordo a evolução da escrita e, nesse texto, os talismãs estão contemplados tratando-se estes de mensagens que na reunião de todos os da mesma tribo ou clã, após descriptadas, exibiam o documento do sagrado que nunca teria fim, tal como um Totem crescia como uma árvore. O Totem é caso aberrante de à primeira vista os invasores católicos a partir das rápidas conclusões dos seus sacerdotes concluírem que se tratava seguramente da imagem de um deus ao que, pelos inúmeros Totemes, afirmaram com toda a segurança, que à falta de análise se precipita na destruição, que aqueles povos não só eram pagãos como ainda por cima eram politeístas. Só muito mais tarde e já no século XX, é que se descobriu que cada tribo índia tinha o seu próprio diário dos seus actos importantes o qual continha toda a sua simbologia de protecção, isto é, os seus talismãs e por isto prossigo com Italo no seu décimo primeiro ponto.


«O nosso clássico é o que não pode ser-nos indiferente e que nos serve para nos definirmos a nós mesmos em relação e se calhar até em contraste com ele.» Ora, é um dos aspectos que define o livro sagrado e acentuo aqui o aspecto mais gritante de um documento destes e comum a todos os outros «…até em contraste com ele…» Os livros sagrados em geral exibem perante nós todo um conjunto de preceitos e deveres para várias metas a tal ponto que duvidamos de conseguir seja o que for. Mais, eles têm a capacidade de amesquinhar um ser ao ponto de o destronar. Porém, eles servem para nos definirmos e daí a luta, a grande guerra, que o Baghavad Gita apresenta. Claro que Italo Calvino não está a destrinçar entre o sagrado e os outros clássicos; eu sim, estou a basear-me nas suas asserções tão claras e evidentes, como é o seu estilo, em favor da Literatura de Religiões. Ora, se o documento for lido não pelos seus princípios, sejam eles de que natureza forem, mas sim pela sua diversidade literária, pelas suas estruturas poéticas, prosas poéticas, prosas, figuras de estilo, pela sua característica sintáctica, observamos inúmeros estilos apenas dentro de um documento precisamente, porque ele foi sendo completado ao longo de gerações e só séculos depois terminado e compilado. Porém o mesmo aconteceu aos documentos de Confúcio como dos gregos antigos os quais foram muito posteriormente compilados por concordância e as Concordâncias são a base de dados para o entendimento de um determinado documento cujo idioma há muito deixou de ser falado, aqueles a que vulgarmente denominamos de idiomas mortos.


Os pontos doze, treze e catorze da obra de Italo Calvino, Porquê Ler os Clássicos, findam hoje este meu texto para discussão na sala da Krypta da FozIber «Um clássico é um livro que vem antes dos outros clássicos; mas quem leu primeiro os outros e depois lê esse, reconhece logo o seu lugar na genealogia.»


«É clássico o que tiver tendência para relegar a actualidade para a categoria de ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não poder passar sem esse ruído de fundo.»


«É clássico o que persistir como ruído de fundo mesmo onde dominar a actualidade mais incompatível.»


E isto vos deixo para o debate tal como muitas outras coisas que afirmei e que deixei penduradas propositadamente.



Publicado por foziber em 06:32 PM | Comentar (0)

maio 09, 2005


Literatura Comparada de Religiões com Italo Calvino


coruja mensageira.gif


Para prosseguir com esta matéria e porque os livros denominados de sagrados são clássicos, decidi começar por expor o que se entende por Clássico e não são as minhas palavras que vão acrescentar seja o que for ao que já está dito. Ora, um dos autores que mais se aplica à literatura comparada de religiões é precisamente Italo Calvino ao qual passo a palavra - e passaria de bom grado não tivesse morrido já há cerca de uns vinte e cinco anos.


Diante de mim e sobre a minha secretária aqui está a obra de Italo Calvino, a que hoje me reporto, Porquê Ler Os Clássicos? Traduzido pelo meu querido sogro José Colaço Barreiros e muito bem – é um grande orgulho para mim ter um amigo como ele. Mas, prosseguindo, em catorze pontos Italo Calvino expõe como é que ele entende ser um Clássico.


No primeiro ponto afirma «Os clássicos são os livros de que se costumava ouvir dizer: ‘estou a reler...’ e nunca ‘Estou a ler...’» Para devidamente situar a sua afirmação prossegue «O prefixo iterativo antes do verbo ‘ler’ pode ser uma pequena hipocrisia por parte de quem tiver vergonha de admitir que não leu um livro famoso.» Por fim e para reforçar, acrescenta «Quem leu todo o Heródoto e todo o Tucídides levante o dedo.…»


De per si, o primeiro ponto, é basicamente a proposta deste autor para ao que se propõe, propondo-se também a desclassificar qualquer «... pequena hipocrisia por parte de quem tiver vergonha...» O que não é matéria para tal uma vez que por mais que um indivíduo leia, inúmeras obras fundamentais ficarão sempre para trás porque se a vida é curta o dia só tem vinte e quatro horas.


Prosseguindo, no segundo ponto afirma «Chamam-se clássicos os livros que constituem uma riqueza para quem os leu e amou; mas constituem uma riqueza nada menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas condições melhores para os saborear.» Prossegue Italo descrevendo – para quem não tiver esta obra aconselho vivamente a comprá-la –, com a sua típica simplicidade as implicâncias da vida para a descoberta da obra mas e por agora, o que nos interessa são os seguintes pontos:


· «Podem ser (se calhar ao mesmo tempo) formativas no sentido de darem uma forma às experiências futuras,


· fornecendo modelos,


· conteúdos,


· termos de comparação,


· esquemas de classificação,


· escalas de valores,


· paradigmas de beleza:


tudo coisas que continuam a agir mesmo que do livro lido na juventude se recorde pouquíssimo ou mesmo nada. .…»


Neste ponto o nosso escritor começa a delinear os mecanismos que sendo inerentes ao ser o são também à estrutura da literatura em geral fazendo-me fixar cada vez mais o nome do curso, que proponho, como Literatura Comparada de Religiões basicamente porque primeiro que tudo há que esquadrinhar as histórias contidas nos documentos sagrados e só depois se procede d’acordo com os pontos supracitados.


E prossegue com o seu terceiro ponto «Os clássicos são livros que exercem uma influência especial, tanto quando se impõem como inesquecíveis, como quando se ocultam nas pregas da memória mimetizando-se de inconsciente colectivo ou individual.» Se o segundo ponto já exibe um vislumbre dirigido à literatura comparada de religiões este, que Italo Calvino agora apresenta, vai mais longe deixando entrever que o Clássico não tem início aqui ou ali em determinada época; na realidade os Clássicos começam dentro de nós tal como começam na grande antiguidade desde que nos surja uma pedrinha com um caracter, um símbolo, um mandala ou um ideograma estamos diante de um possível Clássico. Se depois de buscas in loco de mais material, afim a essa pequena pedra, o contexto do documento obtido, por descriptação, possuir um aceitável nível de continuidade e se ele transmitir algo advindo do sagrado então estamos perante aquilo que compete a Literatura Comparada de Religiões; aliás, só esta literatura poderá definitivamente afirmar se o que ali está escrito é definitivamente uma transmissão pertencente ao sagrado, dado que há muito que se possuem parâmetros para caracterizar algo como tal ou remeter para uma determinada especialidade porque o que se exibe no documento aparentava mas não pertence ao Corpo do Sagrado.


Prosseguindo, Italo afirma no seu quarto ponto «De um clássico toda a releitura é uma leitura de descoberta igual à primeira.» Que eu me lembre, no texto anterior, afirmei que o Panchatantra era um livro que através das suas histórias tinha a missão de incutir e desenvolver a natureza do ser tal como do Ser e uma das regras fundamentais que instrui repetidas vezes, agindo como pedra de quina do documento, é a da releitura das obras não sistemática mas regular ao longo dos anos da vida de uma pessoa. Esta é uma característica, entre muitas como é óbvio, que nos permite definir quando um determinado documento ou obra pertence ou não ao sagrado. Outro aspecto muito importante é que não há sobre a Terra nenhum livro dito sagrado que não seja essencialmente materialista e, sobre isto, pode-se observar na leitura da célebre Tábua de Esmeralda tida como a base do esoterismo... está bem, façam lá como quiserem, mas que o texto é puramente materialista é! Se não veja-se:


« Quod superius est sicut quod inferius


et quod inferius est sicut quod est superius


ad perpetranda miracula rex unius. »


Primeiro que tudo, este documento foi vertido do fenício para o latim aonde alteraram por ‘Rei’ o termo fenício ‘rex’ que significa ‘coisa’; d’unqüe a tradução real é:


O que é superior é como o que é inferior


e o que é inferior é como o que é superior


até que venha o milagre da coisa unificadora.


Estamos perante um manifesto pela igualdade social e que está de acordo com os acontecimentos da época em que este texto foi gravado. Ao ler-se a história de Abel e Caim (na Bíblia) não há ninguém que não fique perplexo e a própria Teologia tem-se envidado em esforços para dar a volta a esta aparente injustiça religiosa por parte do divino que assinalou Caim como o primeiro homicida da humanidade. Vá lá, vamos lá ler isto com olhos de terra deixando de lado o transcendental que já adulterou tanto ou mais que o incêndio destruidor da Biblioteca de Alexandria; também não vale aos teólogos se esfolarem tentando demonstrar que a fruta e os vegetais de Caim eram os piores lá das terras dele... só para rir. Jeová (ou Javé, como preferirdes) dirigiu-se a Abel e a Caim exigindo que cada um deles lhe fizesse uma oferenda dos seus melhores produtos cabendo, a cada um, construir o seu altar para holocausto o que normalmente na época era edificado amontoando terra bem batida para ficar consistente e isto porque a terra da região continha muito barro. Abel trouxe do seu rebanho o mais gordo e opulento dos seus animais para a queimada de oferta ao deus e da mesma forma procedeu Caim, que era agricultor, trazendo o melhor dos seus produtos agrícolas para a fornalha do seu altar dedicada ao deus. Só que Jeová agradou-se da oferta de Abel e quanto à de Caim desprezou-a. Para se analisar, sem “conceitos” de fruta podre, neste relato comecei por observar os nomes Abel e Caim; esta atitude foi natural uma vez que o hebraico é o meu primeiro idioma. Enquanto Caim significa adquirido por (através de) Deus, Abel significa gordo, opulento, vaidoso. Logo aqui observei que a contradição estava patente... mas para quê? Observando os relatos do início dos reis, notei que nos tempos antigos os agricultores viviam das trocas dos seus produtos, possuindo propriedades que cediam aos pastores para fornecer o alimento aos seus gados e em contrapartida recebiam a carne que necessitavam. Surge repentinamente um relato quasi universal no qual os pastores fizeram uma primeira tentativa para dominar os terrenos dos agricultores mas falharam. E é relativo a este acontecimento a história de Caim e Abel. Claro que não tão simples assim como estou a expor mas o que descrevi não se desvia em nada dos acontecimentos conforme o relatado. Posteriormente os pastores tentam novamente o domínio sobre os agricultores e os seus terrenos e conseguindo, segundo os relatos, passou a ser no meio deles que se escolhiam os reis dos povos. Este acontecimento é paralelo à eleição do rei Saúl, o primeiro rei hebreu de Israel. Ora este relato, tal como o da Tábua de Esmeralda, nada possui de esotérico transmitindo apenas a realidade triste dos seres terrestres ansiando de novo a igualdade antes existente.


No seu quinto ponto considera Italo «De um clássico toda a primeira leitura é na realidade uma releitura.» E o seu sexto ponto vai com o anterior, afirmando «Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer.» E com isto fica selado tudo o que atrás afirmei.


Fica esta parte do exposto por mim na Krypta da FozIber o qual prosseguirá na íntegra no próximo texto deste blog.



Publicado por foziber em 06:12 PM | Comentar (0)

maio 05, 2005


O Apocalipse Segue Dentro de Momentos


coruja mensageira.gif


A FozIber não se imiscui no teatro interno das políticas de cada nação a não ser, como é este o caso, quando as políticas internas e externas de um país perigam com a existência dos outros países, dos seus povos e, inclusive, com o próprio planeta. Ora, este é o caso e o ameaçador, para variar, são os Estados Unidos pela vontade embirrenta do “senhor” Bush e tendo atingido proporções tais que até o antigo Secretário de Estado da Defesa McNamara entrou em polvorosa e decidiu alertar o mundo para o perigo crescente a cada minuto ao ponto de mais parecer já uma contagem decrescente para o Apocalipse. Será que Einstein tinha razão quando depois da explosão das bombas atómicas no Japão lhe perguntaram, que dadas as condições e inovações do armamento, como antevia ele uma terceira guerra mundial? Ao que Einstein respondeu «sobre a terceira não lhe sei dizer mas que a quarta guerra mundial será à pedrada e à paulada, isso lhe posso garantir.»


Segundo a FP – Foreign Policy – o Sr. Robert McNamara está muito preocupado. Conselheiro de Kennedy avisou-o e ajudou a administração a tornear a crise dos mísseis cubanos, mas hoje o problema é muito maior porque a administração Bush está a tornar as bombas nucleares como base fundamental da sua política externa. Afirma McNamara esta atitude é imoral e ilegal mas e acima de tudo representa o enorme desastre que já se antevê.


É tempo, diz McNamara, – e já mais que tempo, segundo o meu ponto de vista, – para os Estados Unidos cessarem o seu estilo de Guerra-fria assente em armas nucleares como uma ferramenta de Política Externa, sob o risco de aparecer numa forma tão ridícula como provocativa. Eu caracterizo a política actual das armas nucleares dos E U A como imoral, ilegal e militarmente tão desnecessária quão terrivelmente perigosa. O risco de um lançamento nuclear acidental ou inadvertido é cada vez mais elevado e longe de reduzir estes riscos, a administração de Bush sinalizou que está a enviar esforços para manter o arsenal nuclear dos EUA como um estandarte do seu poderio militar. Ora, esta atitude está completamente contra as normas internacionais que limitaram o desenvolvimento de armas nucleares e os materiais de fissão há já cinquenta anos. Muito desta corrente política nuclear já vinha de antes de eu ser Secretário de Estado da Defesa dos EUA só que agora encontra-se num crescendo cada vez mais perigoso e diplomaticamente destrutivo.


Hoje, os Estados Unidos desdobraram aproximadamente 4.500 centros nucleares ofensivos estratégicos. A Rússia tem aproximadamente 3.800. As forças estratégicas da Grã Bretanha, da França e da China são consideravelmente menores, com 200 a 400 armas nucleares no arsenal de cada estado. Os novos estados nucleares, o Paquistão e a Índia, têm menos de 100 armas cada um. A Coreia do Norte reivindica agora ter desenvolvido armas nucleares e as agências de inteligência dos EUA estimam que Pyongyang tenha bastante material de fissão para 2 a 8 bombas.


Quão destrutivas são estas armas? A média da potência de cada bomba tem um poder destrutivo 20 vezes que da bomba de Hiroshima. Das 8.000 activas nos E U A, 2.000 estão em alerta prontas para serem lançadas com um aviso de 15 minutos.


Quanto ao resto deste texto deixo-vos a:


URL: http://www.foreignpolicy.com/story/files/story2829.php


Saiu a Krypta da FozIber da sua linha? Não! A Krypta da FozIber não é apenas Literatura de Religiões; a FozIber tem essa vertente mas todas as nossas páginas e blogs têm como base e a prioridade o Humanismo. E se este texto surge na Krypta da FozIber é porque é aqui e através do Pal Talk que debatemos estes assuntos. Esta comunicação foi recebida hoje na nossa redacção com grande prioridade de publicação em nada alterando o nosso percurso uma vez que o texto de Literatura de Religiões só está programado sair na próxima semana – talvez Segunda-feira.



Publicado por foziber em 07:08 PM | Comentar (0)

maio 02, 2005


Introdução à Literatura de Religiões Comparadas


coruja mensageira.gif 


O Panchatantra é um dos muitos óptimos exemplos para o que até aqui tenho afirmado. De autor anónimo e tendo origem provável na esfera taoista, no norte da China, foi levado para a Índia pelos budista por volta de 500 (AEC) aonde passou a pertencer à grande biblioteca do idioma sânscrito. Esta obra contém, por encaixes sucessivos, histórias dentro de histórias pertencentes ao estilo das fábulas e cujo fim era totalmente pedagógico. Primeiro ensinado a príncipes e princesas desde a sua tenra infância foi posteriormente adoptado por toda a Índia para todas as crianças e a sua importância era (e é ainda hoje) considerada de tal forma vital ainda antes da era comum (AEC) que penetrou em Kushan e por toda a Pérsia tendo invadido muito posteriormente a Europa através das fábulas de La Fontaine que, na realidade, em comparação com a obra mãe, estão muito mais aquém em todos os níveis.


Cada história do Panchatantra, quando atinge um determinado estádio, dá início a outra normalmente sob uma fórmula comparativa como por exemplo « mas, como disse o ... » e, sempre inacabadas, as fábulas vão rodando e rolando de história em história educando os jovens nas bases morais, de consciência, de julgamento, de análise, de estratégia e dedução, pelo menos, porque cabe a estes, posteriormente, em releituras sucessivas deduzirem o desfecho o qual será, nas suas imaginações em função da idade e das experiências acumuladas, sempre diferente; talvez amiúde antagónico em determinadas fases da idade-experiência mas sempre conclusivo e expansivo e, conclusivo em determinadas alturas da vida, mas expansivo até ao fim dela.


Este é um documento típico inerente à Literatura de Religiões em que às figuras de estilo, nele contidas, há toda uma simbológica a que o texto implica e vice-versa. Não é por acaso que o primeiro pancha (pancha: cinco; tantra: parte, sector, documento), dos cinco que compõem a obra, inicia com o chacal como personagem seguindo-se o touro e outros. A qualidade-atributos simbologicamente inerentes a cada animal, o número de intervenientes tal como a actividade que estão a executar enquanto dialogam, tudo isto possui também a sua sintaxe sine qua non para o desdobrar imaginativo e dedutivo na mente de cada pessoa (jovem ou não); e não falo de sintaxe por qualquer forma de alusão mas, e isso sim, no sentido puro do termo: sintaxe. Há uma Cabala com todos os seus sistemas dedutivos que constituem as ferramentas base para a dedução e evolução das sucessivas vertentes conclusivas a que cada história conduz e, esta cabala, é outra dimensão inseparável do trabalho investigativo e analítico inerente à Literatura de Religiões. Claro que ao me reportar à Cabala não estou a assentar e muito menos a aconselhar a tal, à Cabala judaica se bem que esta também entre em jogo pelos seus sistemas dedutivos. Porém, há que ter em mente que a Cabala judaica tem uma proveniência muito mais arcaica que aponta também para o norte da China e para a época taoista ou mesmo anterior.


Neste momento e pelo acima afirmado, é implícito que aborde aqui o I Ching que será da mesma época e região do Panchatantra – quando afirmei acima que o Panchatantra era do ano 500 (AEC) reportava-me à data da sua definitiva compilação, data essa que também é aplicada para a definitiva compilação do I Ching.


Quem, por esta altura, comece a vislumbrar que eu estou a tomar como tema central da Literatura de Religiões a literatura sagrada chinesa, ou mesmo a sânscrita, desengane-se, porque tal como o afirmei em relação à Bíblia, no final do primeiro texto desta exposição (e blog), também aqui repito e respondo « Não! »


O I Ching é dos documentos mais arcaicos (se não o mais) da combinatória binária formando uma cabalística dedutiva no que concerne à constante comparação entre aquilo que ocorre nos céus, o que ocorre na Terra e o que ocorre nos seres e, por seres, entendem-se todos incluindo os minerais. Como binário o I Ching é matemático tal como é a nível de análise combinatória; porém, a nível dos textos inerentes a cada hexagrama já pertence ao âmbito da Literatura de Religiões quer pelas suas figuras de estilo, quer pela sua sintaxe, quer pela sua poética, tal como pela organização de cada subtópico do tópico que é o hexagrama e que, por sua vez, possui sub subtópicos que são os textos de cada uma das suas seis linhas que o compõe.


 Porém e para abordar o I Ching como obra literária (que o é), há que primeiro aprofundar a análise do texto do Grande Comentário, o Ta Chuan.


Para os próximos debates no Pal Talk o texto de hoje vai assentar apenas numa única asserção do Ta Chuan que nos concederá uma outra visão do desenvolvimento da escrita, visão essa cujo conteúdo não só é muito original como universal no que concerne aos variegados povos deste nosso planeta e que nos permitirá atingir um apogeu assaz pertinente  e, muito mais importante, tão profundo quão amplo.


« Nos tempos primitivos as pessoas governavam


 através da variedade dos nós que davam nas cordas


(Ta Chuan, 2ª Parte, cap. 2, vss. 13)


Escrita por nós em todo o tipo de material: o vegetal que teciam e entrelaçavam para alcançar a consistência e resistência necessárias a fim de que garantissem que os seus relatos perdurassem por longas gerações, o couro, a lã e, o mais curioso por ainda hoje existir, os cabelos, todos foram amplamente usados porém a ordem de uso dos materiais, se é que há, é muito discutível. Há também que realçar aqui a escrita por enfiamento de búzios, pedras e outros minerais, normalmente marinhos, em cordames normalmente de couro e que se destinavam ao mesmo fim sendo natural que com a perda dos ideogramas, dos silabários ou mesmo dos alfabetos que cada objecto e o seu tipo representavam, tenha restado o lançamento divinatório dos búzios e dos outros materiais para fins divinatórios, para jogos tal como para a origem dos terços e rosários meditativos que hoje existem.


Por « ... governavam... » o ideograma chinês expõe com clareza que se trata das actividades e inactividades de cada ser (agora já inerente ao humano), ou seja, orientavam-se, estabeleciam os seus actos, tal como o povo diz « vamo-nos governar » nada tendo, portanto, com ser apenas dado ao acto governativo de quem chefia, comanda ou regula; claro que estes também mandavam registar todos os acontecimentos, tal como as suas ordens, em nós cujos cordames com o tempo foram adquirindo um formato standard.


Esta actividade de registar em nós é considerada universal ao ponto de muito do texto do Popol Vu ter saído desses nós silabários. Da mesma forma a escrita mongol a qual ainda hoje exibe o formato desse entrelaçado, desses nós, no seu alfabeto. Por todos os continentes se foi encontrando esse hábito – tal como no mundo céltico e druídico nós esses que foram usados na Arte Gótica e que ainda hoje perduram e se executam nos vitrais. No caso das mulheres africanas – como acima foquei - do Corno de África tal como em nativas de outras partes do mundo, ainda hoje o entrançado dos seus cabelos exibe o clã ou tribo a que pertencem, a sua ascendência, o seu status, a idade e muito mais. Claro que no caso das mulheres africanas desde o desfrisar dos cabelos até à obra final de os entrançar tudo se executa debaixo de um ritual bem definido desde longa ancestralidade.


Cada nó, independentemente de ser silabário ou alfabeto, era um ideograma que chegou ao ponto de muitos deles formarem, de per si ou no seu conjunto, um mandala cumprindo já muitas das regras geométricas e jogos de cores que ele implicava e ainda hoje implica. Por tudo isto podemos conceber - e com o Popol Vu constatou-se - que todo um conjunto de regras como disposições de acção ou formas verbais, nomes ou substantivos, estados ou adjectivos e toda uma sintaxe não só já existia como permitiu exibir figuras de estilo, poéticas, prosas poéticas, tal como a prosa propriamente dita e muito mais como veremos.


Acontecimentos, alguns diários, textos que mais tarde foram vertidos para a escrita propriamente dita como a que concebemos e possuímos hoje, registos de ensinamentos dos mestres – como uma boa parte do início do I Ching -, descrição de visões, previsões do futuro e profecias em geral, enfim, toda uma vasta gama de matéria sob a forma de nós ou entrançados perduraram até aos dias de hoje tendo permitido vir a lume muitos textos como é o caso do Popol Vu mas não só este; convenhamos, que para povos muitas vezes nómadas o sistema para além de simples era portátil.


Porém este sistema não ficou por aqui. Apesar do sistema de escrita ter passado para a madeira, para o papel de arroz, para o couro e outros materiais a que hoje se chama papel, a escrita por nós e entrançados prosseguiu a sua evolução, possivelmente pelos mandalas acima focados, até ao suporte a que hoje chamamos de tapeçarias.


A tapeçaria Persa surge muito antes da era de Cristo e nessa altura já muitos silabários e alfabetos tinham alcançado uma estilização tão soberba que permitiu, através da escrita, a criação de autênticas obras de arte a que hoje chamamos pintura de Belas Artes usadas com o mesmo fim que hoje. Este foi o caso da escrita e da tapeçaria Persa que rapidamente se espalhou por todo o mundo Indo-Europeu se bem que quanto mais penetrou na Europa mais se submeteu à arte decorativa pois o seu sentido textual e  simbológico não era entendível.


Agora imaginem que eu afirmo que o tapete voador da obra As Mil e Uma Noites existiu... Pois bem; Uma das características das grandes e médias arquitecturas persas consiste nas enormes divisões dos seus salões e no mínimo de objectos no interior de cada uma delas, sendo que no seu centro ali estava aquela enorme e magnífica tapeçaria que ninguém ousaria pisar. Á volta vários triclínios estavam dispostos mas com um acentuado afastamento entre eles tal como da tapeçaria mas, maior era o afastamento das paredes da sala ou salão. Desta forma desde a entrada dos convidados ou apenas da família senhorial, todos se deslocavam por detrás dos triclínios e da mesma forma os serviçais só por aí circulavam para atender a tudo o que os senhores necessitassem em função das ocasiões; os únicos que passavam entre a tapeçaria e o triclínio eram os que os iam ocupar, local aonde se refastelavam para atingir o relaxe necessário para usufruir de um tempo excelentemente passado. Olhavam e pareciam admirar a tapeçaria, que nem sempre era a mesma, e era caso para isso pois os seus pormenores eram (e o são hoje) dignos de contemplação, aquele céu azul que não permitia descortinar se era o pôr ou o nascer do sol, a ligeira neblina permitindo ver os astros, aquele palácio sumptuoso ou um templo idílico rodeado de faustosos jardins.... bom eu poderia permanecer quase que indefinidamente nesta descrição. Mas, ali estava o tapete voador! E voador porque permitia a contemplação e a imaginação de histórias fantásticas; porém, não apenas pelos motivos mas e isso sim pelos textos de histórias do estilo do Panchatantra que estava contido na tapeçaria. Sabendo-se o idioma Persa observar-se-à que aqueles motivos fantásticos eram todos compostos por letras do alfabeto do idioma. No mundo Islâmico este processo não só permanece como é desenvolvido se bem que agora as tapeçarias só são permitidas para exibição em paredes, mas essencialmente é no papel que se exibe como método mnemotécnico para que o jovem decore o seu Sagrado livro o Quran.


O modo como a tapeçaria era concebida e a disposição das histórias permitia que de todos os lados houvesse suficientes textos disponíveis e, desta forma, esta tapeçaria começava a possuir os poderes do tapete voador e mais voavam os que as liam quanto mais eram ingeridas as bebidas inebriantes, os filtros e os fumos alucinogénicos que a obra As Mil e Uma Noites exibem. Então, é verídica ou não a história do Tapete Voador?


 Sobre esta matéria e na sua análise dentro da Literatura de Religiões e da sua necessidade, prosseguiremos no próximo texto.



Publicado por foziber em 01:17 AM | Comentar (0)

abril 30, 2005


A Necessidade do Curso Superior de Literatura de Religiões - Introdução


coruja mensageira.gif 


As aplicações de um curso superior como este são enormes e bem visíveis na vertente pedagógica. Uma aula de Religião e Moral num país não laico – como Portugal – entra em choque com as várias minorias que o país contém e, claro, que muitas minorias num Estado democrático atingem um número respeitável que poderá estar sempre a aumentar. Neste caso a Literatura de Religiões pode muito bem ser vertente para colmatar este problema, podendo-se dizer o mesmo no que concerne à Educação Sexual. Não afirmo que um licenciado em Literatura de Religiões, de per si, se encontre apto para enfrentar esta matéria mesmo porque esta deveria ser apresentada por diversos especialistas. Não obstante uma aula de Literatura de Religiões – não considero que assim se deva denominar –, pode exibir todo um leque de instrução em que os interesses morais, de consciência, estão patentes tornando os alunos hábeis em descortinar esses valores se as aulas forem conduzidas por um licenciado em Literatura de Religiões e para tal remeto-vos à obra de Bruno Bettlheim Psicanálise dos Contos de Fadas (Edit. Livraria Bertrand).


Desta forma o professor surge como um exímio contador de histórias que não as deduz mas e isso sim, induz os alunos à dedução baseado na forma como as apresenta e, deste modo, de todo o enorme volume de documentos considerados sagrados nas várias regiões do globo deverá estar apto a receber e a perceber pela recepção dos alunos o modo como deverá articular as histórias dessas fontes podendo, assim, comunicar aos pertencentes às diferentes comunidades religiosas tal como aos materialistas e ateístas os valores advindos da dedução dos contos, como literatura que são.


Um aspecto muito importante da Literatura de Religiões assenta na busca de estilos e figuras de estilo até hoje não analisados pensando-se muitas vezes estarem-se a formar novas correntes literárias quando elas já existiram; tal observa-se muito bem nas variegadas formas da poesia e da prosa poética da antiguidade tal como também nas Belas Artes, mas neste caso acontece porque têm sido enormes os levantamentos de estilos feitos e investigados com o fito de permitir um maior aprofundar da arte. Ora, se em Literatura se tivesse conhecimento destas antigas correntes, as denominadas novas correntes teriam surgido com muito mais conteúdo, muito mais evoluídas e a Literatura estaria há muito de sobremodo mais evoluída. Mas não... ainda teimamos em arrancar dos Gregos e dos Romanos dando umas penteadelas nos Persas e umas lambidelas exemplares numa parca e já conspurcada literatura dita da Ásia para daí se caminhar, sempre assente na Literatura Grega, pela época Medieval, agora já com mais calma e ripanço como se esta não dependesse das obras literárias religiosas de outros cantos da Terra.


Confúcio é um exemplo do que acabo de afirmar e por mais que alguns proclamem vir Sócrates na continuidade dos sistemas de discussão e dedução asiáticos continua-se a teimar ser Sócrates o primeiro dentro do seu estilo discursivo e dedutivo. O Talmude que é bastante arcaico assenta nesse tipo de discurso e de dedução, mas ao menos os grandes talmudistas reconhecem o seu paralelismo com a Ásia e mesmo se interrogaram e continuam a interrogar-se se será puro paralelismo ou mesmo influência de proveniência que conceda indicadores da origem de um povo.


Um texto de um determinado documento sagrado pode, numa primeira leitura, apresentar-se como apenas de interesse Teológico porque do seu conteúdo apenas sobressai regras morais e de conduta. Porém numa análise mais aprofundada do ponto de vista de Literatura ressaltará todo um valor poético, toda uma riqueza sintáctica e figuras de estilo muitas delas impensáveis de se conceber ali contidas. Por exemplo, o I Ching está muito para além do seu aspecto sagrado ou divinatório; ele é uma obra poética do principio ao fim e, da mesma forma, imensos relatos bíblicos que aparentam apenas uma exteriorização histórica, quando lidos em hebraico, exibem toda uma riqueza acróstica e de outras formas e é isto e muito mais que se encontra esparso nos documentos teológicos.


Deixo esta introdução por aqui para o nosso próximo debate no Domingo dia 1 de Maio por volta das 22h.



Publicado por foziber em 07:55 PM | Comentar (0)

abril 27, 2005


Transmissões da Krypta da FozIber


coruja mensageira.gif  


A 26 de Abril de 2005 demos início da transmissão na nossa sala A Krypta da FozIber e o tema foi e continuará a ser, A Razão de Existir um Curso Superior de Literatura de Religiões.


Segundo o horário estipulado na nossa página A Krypta da FozIber, deu-se início ao texto e debate às 21 h. Como ainda se está a discutir o horário mais ideal para todas as pessoas interessadas nesta matéria – como em outras que iremos apresentar -, decidimos apresentar em contínuo a gravação até por volta das 24h. Não obstante ser uma gravação, haverá sempre um membro da FozIber para satisfazer as vossas perguntas, no âmbito do tema, tal como as vossas propostas. Aqui o debate é fundamental.


Nesta página publicaremos o texto integral da matéria que estamos a apresentar e que hoje assentou na primeira parte do tópico acima apresentado o qual passamos a relatar.


As necessidades e implicâncias de um curso superior de Literatura de Religiões e é isto que hoje vamos abordar num nível introdutório. Aquando da formação dos cursos de Filosofia, História, Sociologia e Antropologia das Religiões já a ideia de um curso de Literaturas de Religiões se impunha mas, infelizmente, não tivemos pulso porque o que tínhamos conseguido com o apoio dos catedráticos já lhes esgotou a paciência... afinal de contas o Curso de Ciências de Religiões Comparadas já existia. Mas Ciência de quê?! Ciência de métodos investigativos de religiões por comparação...? E, se sim, para que âmbito e dentro do qual?


Realmente o curso de religiões comparadas existe ainda hoje no Canadá, até onde temos conhecimento, mas a sua validade internacional só é conferida para o indivíduo que alcançou o doutoramento.


Porém e na realidade, a Literatura de Religiões continua a ser algo precioso a ser estabelecido, porque não é uma simples especialidade que pode conferir essa capacidade analítica e investigativa. Tem que ser todo um curso! E é sobre isto que a FozIber iniciou o debate na sua sala através do Pal Talk.


Ora, havendo o Curso Superior de Literatura de Religiões torna-se óbvio – como aliás já antes com a Sociologia e a Antropologia de Religiões -, aliás, muito mais óbvio a necessidade do Jornalismo e/ou Comunicação Social na vertente de Religiões.


Realmente alguns aspectos – mas muito embrionários – estão contidos no Curso Superior de Teologia e se dizemos ‘embrionário’ é pelo método estanque em que a Teologia funciona. Já dissemos e mantemos no nosso Editorial que nada temos contra a Teologia... só que a vários níveis ela é castrante e este aspecto castrante - porque se torna provocativo -, leva como resposta toda uma literatura jocoso-provocativa anti-Teológica. E quem perde? O documento dito Sagrado cuja riqueza é indiscutível.


Na ausência analítica comparada da Literatura de Religiões surgem livros de Humor, Escárnio e de Maldizer sobre um determinado Documento Sagrado mas que felizmente sempre recai sobre a Teologia como a célebre publicidade a um creme anti-conceptivo denominado pelo Laboratório que o produziu, de Prana e cujo poster exibia um guru na cama com uma sueca e o slogan, em rodapé, dizia «Prana, um prazer na sua cama!» Porém o humor, do nosso ponto de vista e do ponto de vista literário é muito saudável e, acima de tudo, importante. Agora, torna-se descontrolado quando não existe uma Literatura de Religiões contendo todo um escamotear gramatical e de figuras de estilo (ou vice-versa), tal como muitos outros aspectos, a par com a Filologia de Religiões que já há muito existe... no mínimo desde o século XIX a nível da Sinologia.


Desta forma a Bíblia do Humor Judaico tal como obras abordando os amores “secretos” bíblicos têm vindo a lume como se tal fosse uma novidade. Na realidade o humor judaico é fabuloso enquanto a obra atrás focada é tediosa e as obras sobre os amores bíblicos são um déja vue.


Todas as obras épicas, como posteriormente os Lusíadas, têm o seu canto nono; desde o Mahabharata até ao Popol Vu os cânticos dos amores – como os cânticos de amigo -, tornaram-se uma regra, têm que estar patentes e possuírem a necessária sensualidade e, portanto, ninguém cai na treta de que o Cântico dos Cânticos da Bíblia ( ou os Cantares de Salomão) se trata do amor divino para com o povo de Israel. Agora, a particularidade da Bíblia em relação aos demais livros sagrados é que ela não é um livro mas um conjunto de obras... uma biblioteca. O Mahabharata é o maior poema épico do mundo ao qual um capítulo foi retirado e se denomina Bagavad Gita, mas é uniforme, isto é, constitui apenas um livro, não obstante as obras védicas, como as taoístas nunca foram pensadas como uma obra única afim de que se tivesse uma concepção de um princípio, um meio e um fim e, do mesmo modo, a Bíblia não deve ser vista como tal.


 


Por aquilo que temos estado a dizer poder-se-à ter a noção que, relativo ao curso superior que propomos, a Bíblia é algo de central ou fundamental... um sine qua non. Não! A Bíblia é um conjunto de obras independentes e interligadas mas com fontes de origens mui diversas e, como tal, será analisada como qualquer outro documento tido como sagrado e em paralelo nas suas correspondências e analogias com os outros de outros povos por estudo comparativo.



Publicado por foziber em 07:00 PM | Comentar (0)